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Migrações: ontem e hoje a busca por “algo” melhor

Migrações: ontem e hoje a busca por “algo” melhor
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O processo de migração internacional pode ser desencadeado por diversos fatores: em consequência de desastres ambientais, guerras, perseguições políticas, étnicas ou culturais, causas relacionadas a estudos, busca de trabalho e melhores condições de vida, entre outros motivos. A partir de 1850, por exemplo, com o fim do tráfico de africanos foi incentivada a vinda de imigrantes europeus ao Brasil para servir como mão de obra. Para cá vieram assim italianos, alemães, japoneses, poloneses, entre outras etnias, em busca de uma vida melhor. Muitos, para fugir da pobreza em que se encontravam e na esperança de ter seu pedaço de terra. Alguns, inclusive, iludidos com propagandas de que aqui seria o paraíso. As migrações nunca cessaram ao longo do tempo e na atualidade continuam. Para o Brasil as mais recentes são de haitianos, venezuelanos, senegaleses, entre outros povos que buscam neste país um futuro melhor. Nesta matéria vamos focar na vinda de haitianos e conhecer um pouquinho da história de Nahum Saint Julien e Eddy Celestin que atualmente residem em Chapecó/SC.

O estudante de Letras da UFFS, Nahum, chegou ao Brasil ainda em 2010. Nasceu em Pilate, no Norte do Haiti. Lá trabalhou como radialista, administrador de rádio, como diretor geral da prefeitura da cidade, participava de todas as atividades ligadas a movimentos sociais, com intuito de ajudar a população. Ele conta que tinha condições de sobreviver com o trabalho que fazia, porém, segundo ele, os haitianos tem a cultura de que o filho mais velho tem que ajudar os pais e assim ele não tinha condições de bancar essa responsabilidade. Principalmente após o terremoto que estava complicando a situação econômica. “Percebi que tinha que sair do país pra buscar outro lugar e tentar ajudar a minha família. Por isso, naquela época tive contato com um soldado brasileiro que estava no Haiti. Ele falava que aqui no Brasil a gente poderia achar trabalho, outras coisas pra sobreviver, e a gente escolheu vir pra cá pra ajudar a família a sobreviver, nesse sentido vim pro Brasil”, comenta. “Entramos no Acre e ficamos alguns dias. Uma empresa precisava de gente pra trabalhar e nos trouxe pra cá, em Nova Erechim. Fiquei dois meses trabalhando e depois resolvi vir pra Chapecó porque tinha oportunidade de estudar na Universidade Federal”, explica Nahum.

Nahum chegou ao Brasil em 2010

Já Eddy está há quatro anos no Brasil, chegou aqui em 12 de maio de 2016 e é acadêmico de Ciências Sociais da UFFS. Nasceu na capital do Haiti, Porto Príncipe.Em 2014 entrei na Université d’État d’ Haïti (Universidade do Estado do Haiti) para cursar Serviço Social, passei um ano e meio estudando, depois vim para o Brasil para buscar melhores oportunidades”, ressalta. No Haiti, trabalhava como professor de francês no Ensino Fundamental e Médio. “Quando deixei o Haiti, o país estava vivendo uma situação complicada no plano político e econômico, com um governo corrompido que não implementava políticas públicas para melhorar a vida da população”, relata. Ele conta que chegou inicialmente em Florianópolis onde ficou por oito meses, trabalhando em um hotel como auxiliar de cozinha. “Depois resolvi vir para Chapecó para poder estudar porque a Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) oferece oportunidades aos haitianos para estudar através de um programa chamado ProHaiti, que é um Processo Seletivo especial para os estudantes haitianos”, destaca.

Eddy é acadêmico de Ciências Sociais da UFFS

Assim, percebe-se que a vontade de estudar também provoca migrações internas e externas. Da mesma forma como estudantes brasileiros às vezes procuram universidades estrangeiras para concluírem seus estudos.

ProHaiti

O Programa de Acesso à Educação Superior da UFFS para Estudantes Haitianos – PROHAITI, criado em 2013 em parceria entre a Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) e a Embaixada do Haiti no Brasil, tem o objetivo de contribuir com a integração dos imigrantes haitianos à sociedade local e nacional por meio do acesso aos cursos de graduação da universidade. Segundo o site da UFFS (www.uffs.edu.br), o acesso se dá através da oferta de vagas suplementares preenchidas por meio de processo seletivo especial.

Conforme dados da instituição, o primeiro processo seletivo foi lançado em março de 2014 e oportunizou o acesso de 27 haitianos aos cursos de graduação ofertados pela UFFS. Atualmente, são 149 estudantes haitianos com matrícula ativa (ingresso pelo PROHAITI e ENEM), sendo um no Campus Cerro Largo, 122 no Campus Chapecó, 10 em Erechim, 14 em Laranjeiras do Sul e dois em Realeza.

Mapa Político do Haitti
Fonte: http://www.guiageo-americas.com/haiti/haiti-politico.htm

Haiti

Diferentemente do que no Brasil, a independência do Haiti ocorreu através de uma revolução, em que escravizados se rebelaram contra os franceses. A Revolução Haitiana, ou a Revolta de São Domingos (1791-1804), foi um período de conflito brutal na colônia de Saint-Domingue, levando à eliminação da escravidão e à independência do Haiti, sendo a primeira República governada por pessoas de ascendência africana.

Em 2010, o país foi atingido por um terremoto que provocou milhares de mortes e agravou a miséria no Haitti. Ainda hoje, segundo estudo da Organização das Nações Unidas (ONU), 70% da população vive na miséria. Isso gera reflexos na migração, pois quem tem a oportunidade de sair, sai em busca de melhorias para sua vida e da família. De acordo com pesquisa da ONU, o Brasil é o país da América do Sul com maior número de haitianos. Até o final de 2016, foram 67 mil autorizações de residência no país, incluindo temporárias e permanentes. O primeiro fluxo imigratório ocorreu de 2010 a 2014, já o segundo foi de 2014 a 2016 e neste último período, esse fluxo formou-se principalmente por familiares — diretos ou indiretos — dos migrantes já instalados na América, segundo o estudo.

Em 2017 a Organização Internacional para as Migrações (OIM) e o Instituto de Políticas Públicas em Direitos Humanos (IPPDH) do Mercosul lançaram um diagnóstico sobre a migração haitiana para os países-membros e associados do bloco, analisando especialmente o caso das cidades do Brasil, Chile e Argentina. O acesso a garantia de direitos, principalmente de saúde e educação, foi considerado aceitável por esse estudo. Quanto ao Brasil, a regularização de pessoas migrantes permitiu o trabalho formal dos mesmos, diz a pesquisa.

Nahum Saint Julien relata que na época em que chegou ao Brasil não tinha organização, pois a questão da imigração era bem nova. “Já hoje toda essa movimentação que está sendo feita em prol da imigração é um trabalho que estou envolvido, faz tempo, chamando atenção das autoridades. Hoje tem uma outra realidade a respeito dos imigrantes envolvendo prefeituras, igrejas, e eu também dou apoio pra acolher, ajudar, na questão da documentação”, ressalta.

Chegada em Chapecó

Quando chegou ao Brasil em 2010, Nahum relata que foi recebido como em casa. “A questão do terremoto era recente e isso sensibilizou as pessoas a compartilharem conosco, nos ajudar, então o acolhimento foi bom, não tive nenhum problema naquele tempo”, conta o haitiano. “O preconceito iniciou a partir de 2016. A realidade do Brasil começou a mudar economicamente e as pessoas passaram a ficar com mais dificuldades”, comenta.

Já Eddy Celestin explica que chegou em Chapecó na semana em que a universidade iria começar com as aulas. Para ele, a maior dificuldade foi achar uma casa para morar. Além disso, ressalta o estranhamento com a população local. “A nossa presença, eu e meus amigos que também são estudantes, no bairro em que morávamos, foi percebida como ‘estranha’ no sentido que fomos vistos como sujeitos exóticos. Não posso dizer que o acolhimento por parte da população local foi ruim. Em Antropologia, se diz que os humanos têm medo do que não conhecem e entendem, vejo a relação entre chapecoenses e imigrantes às vezes como uma relação de medo porque eles não nos conhecem e entendem. Mas em um plano geral, posso afirmar que a relação não é ruim, não faz muito tempo que imigrantes haitianos estão chegando no Brasil e especialmente em Chapecó, portanto vamos precisar de mais tempo para que a relação possa melhorar. Para que um possa conhecer e entender o outro”, enfatiza Eddy.

No entanto, ele concorda que já sofreu algum tipo de preconceito racial. “Dentre os casos mais emblemáticos que posso relatar: algumas ações que acontecem nos ônibus, que é o fato de que as pessoas se recusam em sentar no mesmo lugar de que eu sem razões concretas, parece que as pessoas evitam o contato comigo. No trabalho também algumas pessoas não querem ser atendidas por mim, mas não tem jeito porque elas são obrigadas”, relata o haitiano.

Eddy trabalha no Centro de Saúde da Família do bairro Cristo Rei (CSFCR) como intérprete e assistente administrativo. A relação com os/as colegas é ótima e ele gosta muito do trabalho. “Mas como falei, algumas pessoas (brasileiros e brasileiras na maioria dos casos) não querem ser atendidas por mim e imagino que é um tipo de preconceito que tem a ver com a cor da minha pele”, lamenta. Como intérprete, ele atende haitianos, venezuelanos e dominicanos que não falam português. “Sou um tipo de mediador cultural porque trabalho como uma ponte entre o paciente e os profissionais de saúde. Como assistente administrativo, trabalho na gestão de documentos, ajudo no setor da regulação e às vezes no setor dos arquivos”, explica.

A língua

            Como vimos, Eddy trabalha também como intérprete auxiliando novos imigrantes que não sabem o português. Nahum também auxilia quem chega, principalmente através de documentação. Mas e eles, como aprenderam a nossa língua? Será que foi difícil?

            Nahum além de francês e crioulo, que é a língua materna, sabe “se defender com o inglês”. Quanto ao português, comenta que começou a aprender na faculdade. “Não é uma língua complicada, tanto, apesar da dificuldade que a gente tem pra falar, não é tão complicado quanto ao francês que é uma língua bem difícil mesmo. Mas é uma experiência muito boa aprender outra língua”, conta. O curso que ele faz na UFFS ainda é Letras Português/Espanhol, proporcionando o conhecimento também com espanhol.  

Já Eddy aprendeu o português durante seis meses em uma escola de Florianópolis, em um curso só para haitianos. “Depois de quatro meses, estava fluente, portanto, não foi tão difícil. Foi uma experiência aprender uma nova língua, vi o aprendizado do português como um desafio e uma necessidade. Falo crioulo, francês, português e tenho um nível básico em inglês”, comenta.

Voltaria ao Haiti?

“Sim, eu posso voltar para o Haiti, mas para visitar minha família, mãe, pai e irmãos, mas não pra voltar pra morar, ficar lá no Haiti”, frisa Nahum. Segundo ele, a condição lá é cada vez pior pela situação econômica do país, pela questão política e outros fatores. “Eu gosto do meu país, mas com a realidade vivida lá não tem como ir e ficar lá no país pra viver”, finaliza.

Eddy também salienta que voltaria, mas no momento não com a ideia de ficar. “Voltaria para passar um pouco de tempo com a minha mãe, meu pai e minha irmã que ficaram lá. Bastante coisa mudou, tive mais oportunidades (estudos e trabalho), cresci no plano profissional e pessoal. Tive que me adaptar à cultura do Brasil, a temperatura -o frio é problemático para mim que venho de um país tropical”, comenta, mas ressaltando que a ideia por enquanto é continuar por aqui.

Imagem retirada do Google

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