Destemidas

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Mulheres que inspiram, transformam e compartilham

As mulheres quilombolas são resistência, elas lutam todos os dias contra o preconceito e persistem na busca por seus direitos. Nos quilombos, são maioria, lideram as organizações comunitárias e são guardiãs dos saberes tradicionais. No entanto, elas sofrem o racismo de forma ainda mais dura que os homens, pelo simples fato de serem mulheres. 

Para celebrar o Dia Internacional da Mulher, a Cresol convidou associadas das mais variadas idades, profissões, classes sociais, estado civil e etnias, para falarem um pouco sobre seu lugar no mundo. 

Luciene: uma mulher quilombola que trança um legado

A Coordenação Nacional de Comunidades Quilombolas (CONAQ, 2017), estima que o Brasil tem aproximadamente dois milhões de quilombolas, que estão distribuídos em cerca de 130 mil famílias. Os dados da pesquisa realizada pela Fundação Cultural Palmares/Ministério da Cultura (2020), mapeou 3.447 comunidades certificadas em 24 estados brasileiros.

Apesar dos números expressivos, as comunidades quilombolas são frequentemente deixadas de lado pelo Poder Público. Desde 2016, houve uma grande queda nos investimentos destinados às políticas públicas para as comunidades quilombolas. No ano de 2019, diversas regulamentações voltadas para esse movimento foram extintas. Em 2020, não foram feitos investimentos na titulação de territórios quilombolas, esse é o primeiro passo para que esses territórios tenham alguma segurança. A realidade é cruel, mas as comunidades quilombolas são feitas de resistência.

Na comunidade quilombola de Vargem do Sal, a 70 km do município de Caetité, na Bahia, residem aproximadamente 280 habitantes, que vivem da agricultura e do artesanato. A localidade é o lar da Luciene Maria Barbosa, uma mulher quilombola, negra, mãe, trabalhadora rural, artesã e técnica em agropecuária. Desde pequena, ela usa suas mãos para fazer arte e manter viva a tradição da comunidade. Aos 10 anos, Luciene começou a confeccionar peças artesanais com a palha do coqueiro licuri, uma imponente palmeira encontrada nas regiões Norte e Nordeste do Brasil. O trabalho vem desde a extração, realizada através de manejo sustentável, seguindo para a secagem, que pode levar até 14 dias, e termina com o traçar arsenal da palha. Essa sequência de processos torna cada produto único. O legado vem passando pela família dela há pelo menos quatro gerações.

Luciene ainda vê muitas dificuldades para todas as mulheres. “Se eu precisasse definir os principais desafios de uma mulher hoje, eu diria que são: ser independente, ter liberdade para tomar decisões, entrar no mercado de trabalho e ter direitos iguais”, salienta. Ela lembra que já teve experiências fora da comunidade, mas prefere continuar trabalhando com agricultura e o artesanato junto à comunidade. “Nunca trabalhei de carteira assinada, mas tive alguns meses como professora e a experiência foi ótima. Em outras oportunidades que recebi, me senti acolhida, mas optei por trabalhar na propriedade. Tenho muito orgulho do meu trabalho na comunidade”, relata.

Apesar de ser livre e empoderada, Luciene se preocupa com os padrões que são impostos às mulheres. “Mesmo diante da evolução do mundo, existem muitas mulheres com medo de se arriscarem e por isso, ainda são obrigadas a viver nos padrões impostos pela sociedade. Como por exemplo: ‘mulher foi feita para casar, ter filhos e cuidar da casa’”, alerta. E para ela, a saída é lutar por um mundo com mais equidade. “Precisamos de uma sociedade humanizada, igualitária em direitos e deveres, para que assim, todas as mulheres possam tomar suas próprias decisões políticas, econômicas e sociais”. 

Neste mês em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, o conselho da Luciene é usar o respeito e empatia para mudar. “O mundo só será um lugar melhor se cada um se colocar no lugar do outro e se questionar antes de criticar ou duvidar das pessoas”, finaliza.

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2 comentários sobre Destemidas"

  1. Muitíssimo obrigada, fico feliz por compartilhar a minha realidade de vida